segunda-feira, 4 de abril de 2011

O papel do Pai no desenvolvimento de um filho


Num mundo onde a dinâmica social sofre constantes transformações, torna-se necessária a revisão do papel do pai na estrutura familiar.
Estudos científicos mostram que o papel do pai começa desde cedo. A sua participação e o seu envolvimento devem ter início no momento mais precoce possível. Sabe-se, inclusive, que ao participarem no parto, os pais se sentem extremamente úteis. Mas nem sempre tal se verificou.
O modelo de pai que antes se reflectia no controlo e na autoridade no seio da família, reservava para a mãe as tarefas domésticas, incumbindo-a de tratar única e exclusivamente da educação dos filhos. Este modelo de família tradicional estava assim organizado segundo uma hierarquia em que a figura paternal se baseava essencialmente no poder económico, isentando-se por completo de possíveis manifestações afectivas para com os seus filhos.
No entanto, e devido às mudanças sociais que se fizeram sentir a partir da década de 60 (como a emancipação da mulher), estabeleceram-se novas relações entre homens e mulheres, levando ao aparecimento de novos padrões familiares. O homem tem assim assistido à ruptura progressiva da hierarquia doméstica, assim como ao questionamento constante da sua autoridade.
Apesar do papel materno prevalecer sobre o papel do pai, sabe-se que a importância da figura paternal é altamente notória no desenvolvimento cognitivo, emocional e social de uma criança. Por outro lado, a relação estabelecida com os filhos ajuda ao desenvolvimento pessoal do homem enquanto pai.
Vários são os especialistas que defendem que a quebra do vínculo afectivo com o pai pode gerar sentimentos de abandono e de rejeição por parte da criança que se poderão repercutir nas relações por ela desenvolvidas no futuro, comprometendo a formação de novos vínculos.  Guy Coreant, psicólogo, que afirma que “o pai é o primeiro outro que a criança encontra fora do ventre da mãe”, sendo esta presença que lhe vai servir como suporte e apoio, possibilitando o seu desprendimento da mãe e a passagem do mundo da família para o mundo da sociedade. Também Raissa Cavalcante defende que a figura paterna é a que permite à criança entrar num horizonte de novas possibilidades.
Disto tudo, e não questionando de forma alguma o papel da figura materna no desenvolvimento psico-social de uma criança, podemos concluir que não é por isso que a figura paterna se torna dispensável. Assim, e porque “ser pai não é duplicar a função de mãe mas sim dar uma nova dimensão à vida da criança”, a construção de relações afectivas duradouras (e saudáveis), seja com o pai seja com a mãe, só traz vantagens para o desenvolvimento de uma criança: ao terem um papel mais activo no acompanhamento dos seus filhos, vão contribuir para a formação de expectativas relativamente a relações futuras que as crianças possam vir a desenvolver.


                                                                                                                      Jorge Santos


domingo, 3 de abril de 2011

Corino de Andrade

Conhecer os nossos cientistas e as suas descobertas é conhecer-nos a nós próprios; é conhecer a nossa cultura! É por isso mesmo que escrevo sobre um dos mais elevados expoentes da ciência portuguesa: Corino de Andrade.
Tendo concluído o Liceu em Beja e frequentado o curso de Medicina em Lisboa, Corino de Andrade é conhecido por ter sido o primeiro investigador a identificar e tipificar cientificamente a paramiloidose, a conhecida “doença dos pezinhos”.
Estagiou com Egas Moniz, prémio Nobel da Medicina e Fisiologia, tendo ainda investigado na Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina de Estrasburgo.
 Em 1938, e depois da sua passagem por Estrasburgo e Berlim (onde trabalhou com célebres neuropatologistas), regressou a Portugal e acabou por se fixar no Porto. Nesta cidade, destacou-se o importante trabalho do investigador português que fundou o serviço de Neurologia do Hospital de Santo António.
Numa altura em que a investigação não recebia qualquer incentivo em Portugal, Corino de Andrade destacou-se pelo esforço e persistência que marcaram a ânsia de um indivíduo determinado, que mesmo sem apoios prosseguiu os seus estudos e lutou pelos seus objectivos.
Mesmo reformado, Corino de Andrade fundou conjuntamente com o professor Nuno Grande o Instituto de Ciências  Biomédicas Abel Salazar, uma nova escola de medicina e de outras áreas do saber, dedicada a Abel Salazar, médico, investigador e prosador português que terá dito que “Um médico que só sabe medicina nem medicina sabe”.
Corino de Andrade faleceu em 2005.



A paramiloidose…



 A paramiloidose é uma doença neurodegenerativa, cujos principais sintomas são a perda de peso e sensibilidade a estímulos.
A doença é transmitida por via genética de geração em geração e resulta de uma anomalia que faz com que uma proteína modifique a sua estrutura (em consequência de uma mutação do código genético), tornando-se a mesma insolúvel, acabando por formar fibrilhas de amilóide em torno de variados tecidos, como por exemplo, os do sistema nervoso.
Para além do sistema nervoso, a doença pode afectar outros órgãos como o coração e os rins.
Actualmente um transplante hepático pode ajudar a retardar a evolução da doença, tendo contudo sido já divulgados dados de um ensaio clínico no qual um novo fármaco conseguiu travar a evolução da paramiloidose (link).

Mário

Estereótipos sociais


Walter Lippmann (1992/1961) é considerado o fundador da conceptualização contemporânea dos estereótipos e do estudo das suas funções psicossociais.

O termo ‘estereótipo’ já existia desde 1798, mas o seu uso corrente estava reservado à tipografia, onde designava uma chapa de metal utilizada para produzir cópias repetidas do mesmo texto (Stroebe e Insko, 1989). O termo também já era usado de forma esporádica nas ciências sociais para denotar algo ‘fixo’ e ‘rígido’, o que se prende com a origem etimológica da palavra: stereo que, em grego, significa ‘sólido’, ‘firme’.

Por analogia, Lippmann salientou a ‘rigidez’ das imagens mentais, especialmente aquelas que dizem respeito a grupos sociais com os quais temos pouco ou nenhum contacto directo. A visão dos estereótipos como algo rígido caracterizou muitos dos estudos posteriores sobre esta temática. No entanto, o autor não descurou a possibilidade de mudança dos estereótipos e salientou o carácter criativo da mente humana.

Lippmann conceptualizou os estereótipos como resultantes de um processo ‘normal’ e ‘inevitável’, inerente à forma como processamos a informação.

Ele (Lippmann) define os estereótipos como imagens mentais que se interpõem, sob a forma de enviesamento, entre o indivíduo e a realidade. Segundo o autor, os estereótipos formam-se a partir do sistema de valores do indivíduo, tendo como função a organização e estruturação da realidade:

“For the real environment is altogether too big, too complex, and too fleeting for direct acquaintance. We are not equipped to deal with so much subtlety, so much variety, so many permutations and combinations. And although we have to act in that environment, we have to reconstruct it on a simpler model before we can manage with it. To traverse the world men must have maps of the world” (Lippmann, 1922/1961: 16).

Lippmann salienta o papel activo do indivíduo na construção dos estereótipos que são sempre ‘selectivos’ e ‘parciais’.

Um dos motivos que explicaria o carácter ‘fixo’ dos estereótipos seria precisamente a necessidade do indivíduo proteger a sua definição da realidade.

Quando um membro de determinado grupo age de forma contraditória ao estereótipo, Lippmann considera que, na maior parte das vezes, este membro passa a ser visto como uma excepção, mantendo-se o estereótipo intacto. Este só é abalado se o indivíduo ainda tiver alguma flexibilidade de espírito ou se a informação incongruente for demasiado impressionante para ser ignorada:

“If the experience contradicts the stereotype, one of two things happens. If the man is no longer plastic, or if some powerful interests make it highly inconvenient to rearrange his stereotypes, he pooh-poohs the contradiction as an exception that proves the rule, discredits the witness, finds a flaw somewhere, and manages to forget it. But if he is still curious and open-minded, the novelty is taken into the picture, and allowed to modify it. Sometimes, if the incident is striking enough, and if he has felt a general discomfort with his established scheme, he may be shaken to such an extent as to distrust all accepted ways of looking at life” (Lippmann, 1922/1961: 100).

O estudo empírico dos estereótipos começou pouco depois da publicação da obra de Lippmann. Fortemente influenciado pela definição dos estereótipos como ‘pictures inside our heads’, Rice (1926-1927; referido por Oakes, Haslam e Turner, 1994) realizou um estudo em que apresentou aos participantes uma série de fotografias de pessoas pertencentes a diferentes grupos sociais. Estes efectuaram facilmente correspondências entre as fotografias e os ‘social types’ e procederam a atribuições de traços de personalidade, baseando-se neste processo de correspondência. Esta técnica não teve, contudo, grande sucesso na altura, só vindo a ser recuperada muito mais tarde.

LaPiere, um psicólogo social americano branco, viajou pelos EUA acompanhado por um casal de chineses, bem parecidos e bem vestidos, muito sorridentes e com um “inglês sem pronúncia” (1934: 232). O autor foi anotando as reacções dos funcionários dos diversos estabelecimentos hoteleiros. Nesta viagem foram recebidos em 66 hotéis e em 184 restaurantes e cafés, tendo apenas sofrido uma recusa num hotel. Algum tempo depois foi enviada uma carta a cada um destes estabelecimentos, perguntando se aceitariam chineses como clientes. Das respostas recebidas, 92% eram negativas, tendo as restantes afirmado que dependeria das circunstâncias.

Os resultados mostraram que é possível haver uma manifestação de tolerância ao nível comportamental e, simultaneamente, uma expressão de intolerância ao nível atitudinal, pelo que foram interpretados como reflectindo uma inconsistência entre atitudes e comportamentos

A discrepância entre atitudes e comportamentos está bem ilustrada empiricamente por réplicas do estudo de LaPierre. Por exemplo, Kutner, Wilkins e Yarrow (1952) replicaram este estudo de LaPiere usando como grupo-alvo os negros, tendo obtido resultados idênticos. De referir, no entanto, que o estudo foi realizado com três jovens, duas brancas e uma negra, “bem vestidas e bem educadas”. Assim, tanto neste estudo como no anterior, o estatuto social percebido das pessoas-alvo poderá ter tido forte impacto nos resultados.

Apesar das críticas iniciais ao método de questionário, esse foi, sem dúvida, o mais popular no estudo dos estereótipos, pelo menos até à ‘revolução cognitiva’. O método mais utilizado foi o da ‘lista de adjectivos’, desenvolvido por Katz e Braly (1933; 1935).

 João Cardoso

Justiça, Primogénita da Democracia


O nosso modelo social está ultrapassado. A complexidade das interacções estabelecidas numa sociedade, a hierarquização… tudo é propício ao inconformismo, à relutância perante a injustiça, a demagogia e a repressão disfarçada de uma aparente liberdade.
A Democracia Representativa jamais representa o espírito da liberdade e da livre iniciativa, uma vez que não raras vezes são descurados os interesses da sociedade em geral. A aplicação de valores, princípios e ferramentas de uma Democracia Participativa urge um pouco por todo o mundo, uma vez que o nosso regime Democrático Representativo está corrompido por aqueles que auferindo de um “estatuto social avantajado”, de modo coercivo subordinaram a Justiça à Democracia.
No texto seguinte, para além expor a minha visão do nosso modelo social, procuro explicar a razão pela qual acredito que o nosso sistema de livre iniciativa fracassou na nossa época: esse sistema ainda não foi aplicado!
Para expor algumas das minhas ideias escrevi a crónica que se segue. Afinal, qual a actual relação entre Democracia e Justiça? Como explicar o aparecimento da injustiça no seio social? (…)


 “Poucas descobertas são mais irritantes do que as que revelam a origem das ideias.”
 “O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente."

Lord Acton



Ignoto é um velho companheiro de diálogo. Por isso mesmo, encontramo-nos frequentemente para pôr a conversa em dia e deambular sobre assuntos do trâmite social mais contundentes e fracturantes. Numa última conversa, Ignoto relatou um episódio insólito ocorrido entre a Democracia e a Justiça.
A Justiça é primogénita da Democracia, aliás, durante anos, sua essência e amparo. Contudo, com novos tempos de faustosas modernidades, a aliança de sangue entre irmãs é francamente fragilizada pelas novas tendências de uma sociedade em mudança e propícia a crises de valores.
Tanto quanto me foi possível apurar, quiseram disputas pelo poder separar as irmãs que se envolveram num aparatoso conflito que humilhou a humanidade. Nesta trama, destacaram-se ainda aqueles que assistindo ao conflito, eram também fonte de tumulto e não tão pouco culpados: por todo o lado se ouvia o púlpito das massas que acusavam a Democracia de se aproveitar da Justiça pelo facto desta última ser cega. Ora, se a Democracia se encontrava já enfurecida, o gáudio das massas perplexas pelo acontecimento e decepadas da sua capacidade racional, extasiava-a ainda mais, pelo que se debatia violentamente contra a Justiça, sacudindo-a e deixando-a prostrada no chão. Esta última, francamente fragilizada respondia:
- Demo kratos depravado e ultrajante! Quiseste tu aproveitar-te do teu aparente estatuto solidário e justo – em muito favorecido pela minha pessoa; para agora te tornares autónomo e agir colateralmente? Não sabes tu que “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”? Ou será que a Democracia é isenta a este princípio tão amplamente defendido?
A Democracia não respondia verbalmente à Justiça, aliás, nem tão pouco procurava inteirar-se do seu ponto de vista! A cada argumento proferido pela Justiça, a Democracia sacudia-a ainda mais, repelindo-a com gestos de simultânea violência e precaução – porquanto o cuidado não devia ser pouco… A Democracia vestia um traje verde, um pouco desvanecido pelo tempo e já de tons melancólicos. Apesar do avarento e erróneo comportamento da Democracia, todos os seus gestos exasperavam uma delicadeza sublime: a Burocracia era o satélite natural da Democracia. Existia uma força de atracção entre os dois corpos, que como sabem, é directamente proporcional às suas massas e inversamente proporcional à distância que os separa (parece que a Democracia morre de amores pela Burocracia, por isso mesmo, a força de atracção gravítica entre os corpos é tão intensa). Deste modo, com a Burocracia tão perto, a Democracia agia de modo meticuloso, não fosse a Injustiça avantajar-se na labuta e ripostar com todas as suas forças.
Confidenciou-me o meu amigo que a porfia só terminou quando a Injustiça, a mais velha e manhosa das irmãs, assomou ao campo de batalha vinda numa moto GT de 125 cavalos. Injustiça, ao contrário de Justiça, era aparatosa e opulenta, de um modo geral, muito bem adaptada aos novos tempos. Não obstante, se por um lado a Justiça é cega, por outro, a Injustiça aufere de uma visão exímia nem tão pouco corrompida pelo peso da idade.
Provavelmente interrogar-se-ão a razão pela qual a Injustiça, desequilibrada, farsante e maldosa, socorreu as irmãs… Bem, não foi bem auxiliar as irmãs, mas antes a irmã Justiça, com quem havia crescido e passado a sua infância, apesar das notórias crispações ideológicas entre as duas! Era, de facto, demovedor ver a Justiça naquele estado lastimável: as roupas rasgadas pelas investidas violentas da Democracia, as vendas que escondiam aquele olhar longinquamente cego tinham desaparecido e até mesmo a balança (objecto das decisões justas e equilibradas) perdera o rumo e contrabalançava-se infinitamente, tilintando quando batia no chão manchado de vergonha.
Se por um lado a Injustiça invadiu-se de sentimentos de compaixão pela Justiça, por outro, viu-se envolta numa enchente de fúria perante a Democracia. Sim, essa tirana que durante anos a condenara ocupava agora o seu estrato social. Não fossem os sentimentos de repudia desenvolvidos por ambas e poderiam actualmente ser grandes amigas…
Apesar da diminuta e insignificante diferença de idades entre a Injustiça e a Justiça, durante milénios, a velha manhosa acabou por prevalecer sob a sua irmã mais nova, sendo a guia condutora de toda a humanidade. Só com a emancipação solista da Democracia, a Injustiça começou a perder terreno (e uma irmã): a Democracia havia convidado a Justiça para exercício de funções! Num Estado verdadeiramente democrático é preciso que haja quem coordene o que é justo ou não, assegurando que direitos e deveres são cumpridos por todos, ou então os delatores da lei têm punição certa. Por todas estas razões, a Democracia foi durante milénios subordinada à Justiça (cordata, mas cega e ingénua). Agora, como Democracia detém a hegemonia do poder, repele a Justiça e segue a guia comportamental da Injustiça numa tentativa de auferir maior proveito próprio.
Mais não sei. A Injustiça, com o seu aspecto vistoso e jovem, empoleirada numa moto GT 125, aufere de um aspecto convidativo para os mais jovens. É assim mesmo, a Injustiça é verdadeiramente injusta e disfarça-se como pode, numa tentativa de atrair para o seu mundo o maior número de indivíduos possível. Neste caso, desta monta feita, a Injustiça não vagueia na sua moto à procura de Cristãos Novos, mas transporta antes a Justiça para um local mais seguro. Fraternidades à parte, quando as entidades legais não funcionam ou quando nada corre conforme o planeado, há sempre quem se socorra da Injustiça…


Mário

sábado, 26 de março de 2011

Aculturação


O processo de aculturação dá-se devido ao contacto entre culturas diferentes e as consequências que este mesmo contacto traz para um determinado grupo. Designa o processo pelo qual duas ou mais culturas diferentes entrando em contacto entre si  originam mudanças importantes numa delas ou em ambas. É a aquisição de  elementos culturais de culturas externas à sua, aquisição essa que é o resultado das relações culturais. Essas mesmas relações culturais podem ser de diversas ordens:

Simbiose Cultural: ocorre quando há uma convivência entre duas ou mais culturas;
Osmose Cultural: ocorre quando mesmo sendo culturas diferentes, alguns elementos culturais unen-se devido a alianças matrimoniais, trocas comerciais, lutas ou guerras. Esta é uma relação típica das zonas fronteiriças;
Fusão Cultural: ocorre quando elementos culturais de duas ou mais culturas s misturam originando outra cultura. Um exemplo é o que aconteceu no México: a cultura azteca nativa fundiu-se com a cultura espanhola dando origem à actual cultura mexicana;
Segregação ou Apartheid: recusa política de aculturação, provocando uma divergência entre a cultura nativa e a invasora.
Sincretismo: ocorre quando se juntam características de divindades ou de outros elementos religiosos de sistemas religiosos completamente diferentes, dando origem a novas divindades.

Estas relações incluem a existência de agentes de aculturação. Entre eles pode-se destacar:
→ A actividade missionária que não se limita apenas ao cristianismo, mas a todas as religiões estruturadas em igrejas, e que têm como objectivo mudar outras culturas na sua vertente religiosa. Os missionários actuam direstamente sobre as pessoas e indirestamente sobre as instituições.
→ O comércio é um dos veículos mais comuns de trocas de culturas.
→ O colonialismo é o domínio de um povo por um grupo de colonos o que implica que haja também um domínio cultural e político imposto pelo país de origem dos colonos.
  Tiago Peixoto

terça-feira, 22 de março de 2011

127 Horas - O filme e o Homem


É uma história verídica da impressionante aventura do montanhista Aron Ralston, na sua luta ao ficar preso após uma queda num desfiladeiro isolado no Utah (EUA). Durante os cinco dias seguintes Ralston examina a sua vida e sobrevive aos elementos para finalmente descobrir que tem a coragem e os recursos para se libertar por qualquer meio necessário, escalar uma parede com 200 metros e caminhar mais de 12 km antes de ser finalmente salvo. Ao longo da sua viagem, Ralston recorda amigos, amantes, família e as duas caminhantes que conheceu antes do acidente.



Aqui em português

“127 hours” demonstra como a mente e a fisiologia humana resiste e reage a situações de sobrevivência inesperadas. Neste filme verídico temos situações de alocinações, visões, desespero, arrependimento, pânico, entre outros. Esta história é um grande exemplo de sabedoria a nível geológico e fisiológico bem como a temática da física e do ambiente em que o personagem se encontra.
Aron Ralston é um jovem que sempre foi muito independente, não demosntrava os seus sentimentos e afecto com a família, nem como amigos e não conseguia sustentar uma relação amorosa. Devido a essa sua personalidade Aron nunca chegou a ter verdadeiros amigos, e afastou-se da sua mae.
Quando Aron viajou para Utah, ninguém da sua família sabia e como este não se relacionava com ninguém e nem atendia os telefonemas da sua própria mãe, nunca foi dado um alerta quando este ficou em apuros.

 Aron durante cinco dias esteve preso pela mão num desfiladeiro, com pouca água, somente com 15 minutos de sol diários, rodeado de formigas e sem comida. Devido a estas condições Aron teve que se sujeitar a beber da sua própria urina para sobreviver. Durante esses longos dias, a sua única companhia era a sua câmara de filmar e uma Águia que passava sempre à mesma hora, durante todos os dias pela zona em que este se .
 
Uma história verídica que nos faz pensar e abrir os olhos perante ao papel que temos que estabelecer na nossa sociedade, a importância da socialização e o factor mais importante, a família que tanto nos ajuda e apoia em todas as situações.



Homem em que foi inspirada esta história fascinante. Após o Alpinista perder parte de seu braço, continuou a aventurar-se em escaladas e alpinismo, formou uma família e a partir daquele momento, passou a avisar sempre para onde ia.



Joana Campelos

domingo, 20 de março de 2011

A Cultura: indispensável ou pecado?

Parafraseando Edward Burnett Tylor, cultura é: 

"...aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade."

Dito de outra forma, cultura constitui tudo aquilo que o Homem institui na natureza, formando uma identidade própria, característica de determinada zona geográfica e de uma dada população; não há homem sem cultura, mas cada sociedade possui as suas normas culturais específicas e particulares. É a concretização deste conceito que nos “transforma” no que nós somos fenotipicamente.

Representação da cidade de Nova Iorque.
São visíveis múltiplos elementos culturais em voga na nossa actualidade
 
"Family Portrait" autor desconhecido
À nascença, somos integrados numa família que desde cedo nos incute valores e normas, para que a sociedade nos aceite, seres repugnantes e alheios  à Cultura envolvente. Esta é, assim, a nossa primeira fase de socialização, a integração familiar. Com ela aprendemos o “saber estar” num grupo, aprendemos a camuflar as nossas pulsões biológicas, amenizando-as.

Após esta fase estar concluída, o ser animal, biológico nascido, torna-se um ser aparentemente dócil que consegue dissimular os seus desejos mais intrínsecos, graças à “preciosa” ajuda familiar, tendo em vista a aceitação deste novo ser na sociedade. Esta mutação é feita segundo uma regra comum, os valores culturais em vigor. É a preparação para a fase adulta, o tudo-nada que condicionará todas as nossas acções na fase adulta. Se a Socialização Primária for concluída com sucesso, isto é, de acordo com o padronizado pela sociedade, o individuo está apto para passar ao nível seguinte.

Seguidamente, principia a fase seguinte de socialização, a fase secundária. Neste caso temos um individuo no estado adulto e a apreensão de novos saberes advém da intensidade da socialização e está ligada à integração plena na vida social activa e aos ajustamentos decorrentes de alterações nos estatutos e funções sociais. Nesta fase, o individuo está completo ao nível da sua personalidade e as suas aspirações acompanhá-lo-ão o resto da sua vida.


 Por vezes, nesta odisseia cultural, a maturação do individuo bem como as suas aspirações e desejos são confundidos com os ideais da Sociedade, fruto da cultura que se vivencia no momento efémero do individuo. O Ser que se lança ao mundo vem imbuído de ideias sobre aquilo que quer ser, e muitas vezes esquece-se das suas limitações.

A nossa sociedade é um óptimo exemplo para a minha tese: há 25 anos atrás, perguntava-se a uma criança sobre o que ela queria ser no futuro e obtínhamos respostas como “Veterinário”, “Médico”, “Advogado”, “Professor”; nos dias de hoje pergunta-se a uma criança o que ela quer ser no futuro e somos confrontados com “Futebolista”, “Modelo”, “Cantora”, etc. Ao que se deverá tudo isto? 

Como já foi referido acima, a Cultura é uma característica de determinada zona geográfica e de uma dada população, e por conseguinte, não é permanente, altera-se ao longo da evolução histórica. Essa evolução cultural influencia toda a Socialização, que por sua vez influencia o individuo, desviando-o das suas verdadeiras pretensões, camuflando-as com outras. O resultado é uma pessoa que seguiu determinada carreira, é aparentemente sucedida, mas ainda assim incompleto, frustrado. Estes casos estão em voga nos nossos dias: muitos filhos seguem copiosamente os desejos dos seus pais, pondo de parte os seus próprios desejos; há ainda o caso dos indivíduos que vivem numa família “desajustada” socialmente ou alienada, neste caso o individuo segue aquilo que vê na “realidade mais próxima do real”, aquilo que a comunicação social lhe transmite: as telenovelas, as vidas cor-de-rosa dos famosos…

O resultado é uma pessoa frustrada, desajustada ao nível social, desequilibrada, com problemas em discernir o seu estatuto social (e consequentemente o seu papel).

"O Filho do Homem" - René Magritte

Posto isto, levanta-se a questão: onde está a falha? Parece-me lógico que a falha está na socialização primária, a família como agente educativo/normativo falha redondamente, não gerando um ser adaptado ao meio social agreste, mas sim um alienado perfeitamente integrado numa sociedade com uma cultura dita, etnocentricamente, evoluída(?)…